terça-feira, 23 de março de 2010

Internato X Residência

By skydiver wannabe
 
As pessoas costumam ficar bastante confusas com esses termos científicos complicadíssimos da medicina. Vou deixar aqui uma explicação (de uma vez por todas!) e, dessa forma, os amigos de médicos-to-be podem gratuitamente rever esses conceitos toda vez que tiverem dúvidas.

Bem, primeiro, uma breve introdução: a faculdade de medicina no Brasil é realizada em 6 anos. (Ou 12 períodos, se você é daqueles que não conseguem pensar em anos). Os 2 primeiros anos compõem o infinitamente chato “ciclo básico”. Aulas cuspe-giz intermináveis de 3 horas, provas com uma quantidade descomunal de decorebas, professores com egos gigantes. A maior parte das pessoas que eu conheço pensou em desistir da faculdade nesse início porque é chato pra caramba mesmo! Lógico que sempre tem uma matéria ou outra que a gente gosta e talvez sejam essas exceções que nos deixam chegar no 3º ano.

Que é onde tudo fica bom. Porque a gente começa a ver paciente, a aprender como se examina, como se faz a história (da doença e do doente). No 4º ano a gente já começa a diagnosticar as doenças (pelo menos as mais simples), escrever em prontuário e discutir com os médicos que exames vão ser pedidos, qual é o melhor tratamento… Só que a gente faz isso de manhã e à tarde continua tendo aula mesmo, pesada, muita matéria, muita prova. Só que a essa altura você já é um mestre da cola (admiro com uma pontinha de inveja os gatos pingados que chegam ao 8º período fazendo provas honestamente, porque com aquela enxurrada de assuntos pra estudar e o tempo proporcionalmente escasso não vejo outra saída que não a consulta ao colega do lado, quando possível).

Depois disso vem o internato. Ele nada mais é que os 2 últimos anos da faculdade (ou o último 1 ano e meio, dependendo da faculdade). O internato é aquele período em que a gente ganha mais responsabilidade, tem que cuidar de 1 paciente (ou mais, dependendo de quão cheia esteja a sua enfermaria) globalmente e tem muito menos aulas e provas. É um período ao qual muita gente se refere como O Paraíso, dentro de um curso desgastante como medicina.
E no meu caso é assim: no quinto ano a gente vai direto de janeiro a dezembro, sem parar (muitas vezes sem feriados ou fins de semana, em que temos que passar visita nos nossos pacientes). 

E passa 12 semanas em cada uma das grandes áreas (Clínica Médica, Pediatria, Ginecologia & Obstetrícia e Cirurgia). No 6º e último ano podemos ficar 5 meses no hospital que quisermos e no serviço que bem entendermos (é o chamado internato optativo), dependendo da área na qual queremos nos especializar. 
Quem quer cardio pode ir pro Laranjeiras; quem quer oncologia tenta o Inca; quem gosta da área de pesquisa fica na Fiocruz; quem quer dermato reza pra ter CR pra ir pra disputada enfermaria do Azulay, na Sta Casa, etc, etc, etc… Tem gente que inclusive passa essas 20 semanas em algum serviço maneiro fora do estado ou país.

Depois temos mais 5 meses de internato obrigatório, com grade fechada, e passamos por especialidades que (a não ser que queiramos seguir alguma delas) nunca mais veremos: dermato, dip (doenças infecto-parasitárias), otorrino, oftalmo, psiquiatria e medicina preventiva. E aí termina o ano em outubro, a tempo do pessoal se dedicar integralmente às terríveis provas de residência. Porque medicina é um vestibular pra entrar e outro (pior) pra sair. Enquanto isso, tem formatura, juramento hipocrático, CRM, tudo aquilo. Pronto, você é médico generalista.

Só que você tá prestando concurso pra sua especialização (residência = especialização). E, uma vez que você passa nesse vestibular pra algum hospital, pronto, você é médico residente.
Me dá nervoso quando alguém pergunta:
- Ele é médico ou é só residente?
Caramba: residente é médico! Tá formado, tem carimbo: pode pedir exame, prescrever qualquer tido de remédio, dar atestado, entre outras utilidades públicas.

Então vamos acabar com essa dúvida: o interno é acadêmico ainda, está em algum lugar dos 2 últimos anos da faculdade. O residente é médico recém-formado e, durante 3 a 6 anos (dependendo da especialidade), vai ser um dos seres humanos mais explorados do mundo, trabalhando uma carga de 60 horas semanais (sem contar, muitas vezes, com umas 24 horinhas básicas de plantão) e ganhando 1.600 reais. Parece que ano que vem vai aumentar pra 2.200, mas isso é assunto pra outra hora.
Mas quando eu passei umas semanas na pediatria do Hospital dos Bombeiros e o cara da portaria perguntava se eu era residente pra poder estacionar lá dentro eu bem dizia que sim porque eu é que não ia parar o carro debaixo da Paulo de Frontin : )

fonte:http://deconcreto.wordpress.com/2006/11/14/internato-x-residencia/

3 comentários:

  1. Gostei muito do seu artigo e me esclareu muitas dúvidas, obrigado!!! Ainda estou na dúvida se farei medicina mas já estou pensando em presta pra FMUSP c: obrigado mesmo. E Sucesso!

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  2. Tirou muitas dúvidas, valeu! Me esclarece uma dúvida? A Especialização é feita na prática? Ou seja, trabalhando? Foi o que eu entendi com a explicação. Obrigado.

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